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segunda-feira, 18 de outubro de 2010

HABITANTES DO VALETÃO PARTE 1

Eu me lembro que na época pegava algumas aulas de violão pois queria aprender a ler partitura..Eu queria só pegar as notas de alguns acordes e fazer dessas fundo musical de um protesto social.Eu tocava em uma banda punk hard core e por isso não tive muita paciência com o solfejo e em poucas aulas abandonei a escola.
Eu tinha uma linda namorada,que fiz do amor platônico um amor concreto.Era recente nossa relação mas a paixão que mantinha por ela que fora a primeira vista, completava já quase um ano.
Certa tarde estava em sua casa dando um love, seu irmão presente na sala apostando em corrida de cavalos pela televisão e estava tudo bem. Durante um tempo fiquei com ele sentado no sofá, trocando idéias e tomando whisky do seu pai até que decidi ir embora pois já havia anoitecido e estava tarde. Me despedi do cara dei um beijo gostoso e declarado em minha namorada e fui para casa.
Caminhava sozinho pela madrugada carregando a apostila de música contendo as partituras que apesar de não ter paciência na escola tinha comigo a disposição para ser autodidata, fazendo valer o lema punk(DO IT YOURSELF) ‘’faça você mesmo.’’
Ouvi alguém que me chamava, gritando alto na madrugada, olhei para ver e era o Douglas que pediu para esperá-lo. Seu avô morava na mesma rua que minha casa então seguimos juntos a caminhada. No caminho fomos a farmácia comprar agulhas para tomar um baque de Hipofagin. Ficamos durante um tempo no cemitério fumando mesclado, tomando vinho e assistindo as autópsias que aconteciam no IML. Aquela noite não voltei pra casa,dormi lá mesmo no cemitério,dentro de uma gaveta existente em uma cova aberta.
Ao amanhecer fui acordado por algumas mulheres velhas que acendiam velas nas sepulturas e se assustaram ao me ver. Fui para casa mas logo estava na rua.
Eu e o Douglas consumíamos drogas compulsivamente. Fomos até uma farmácia na capital, localizada na Sé onde conseguimos sempre através da caixinha ou do cafezinho do farmacêutico comprar vários psicotrópicos, barbitúricos e anfetaminas todos faixa preta para mantermos nosso estoque. Na volta fui ver minha namorada,começou a me fazer perguntas eu me esquivei e fui embora.
Havia um lugar que me encontrava com os caras e também guardava as drogas batizado como Valetão era o subterrâneo da cidade, nosso abrigo nuclear e fui para lá.Quando entrei Douglas já estava lá fumando um baseado,combinamos de fazer um rolê na ‘‘Woodstock’’lá no Anhangabaú com o Sepultura, arrumei um dinheiro e fomos.
Lá encontramos o Heavinho, maluco gente fina, morador de Poá cidade vizinha e ficou com a gente. Apavoramos uma par de caras e no final tivemos que correr dos carecas do subúrbio pois a gangue dos caras era gigante e se catasse lamentável era massacre.
Sempre faziamos isso. Saíamos do subúrbio passávamos por 15 estações de trem em direção ao centro de São Paulo para desafiar o sistema e as gangues locais, tipo o filme‘‘Warriors’’.
Não éramos uma gangue e sim drogados inconseqüentes. Em uma dessas ídas sem garantia de volta perdemos um camarada no trem Reinaldir era o nome dele. Foi vítima dos skinheads, filhos da puta paga paus de nazistas de cabeças raspadas. Não conseguiu fugir também não tinha pra onde, sozinho no vagão os nazistas o pegaram abriram a porta do trem e o jogaram para fora, morte certa.
Todos esses suburbanos loucos que saíam de casa sem garantia de que voltariam vivos eram metaleiros,onde 2 se destacavam visualmente por serem punks hard core, que era eu na época conhecido como caqui podre hoje escritor cákis e o japonês Milton cuja ultima vez que o vi, fomos de carona para sua casa dentro de uma viatura policial eu e ele entregues à seus pais.Soube depois que seus pais lhe deram um ultimato:ou vai para o Japão ou é expulso de casa, acho que escolheu a segunda opção porque nunca mais o vi.O japonês sempre estava anestesiado eu era revoltado, indignado,anti sistema e também drogado, já os metaleiros só falavam mal de Deus e diziam adorar o diabo. Eu achava comédia os caras porque alguns tinham medo quando simulava uma possessão ou quando nossa vida estava em risco fugindo dos tiras,correndo de gangues ou quando alguns de nós tendo ataque epilético,cardíaco ou overdose de drogas começavam a rezar pedindo a Deus que salvassem o próximo ou a si mesmo.
Certa manhã acordei com os abutres cantando, forma carinhosa de chamar os passarinhos.No Valetão comigo estavam Heavinho, Sepultura, Pedrok,William e mais dois caras que não me lembro agora.
Heavinho acordou sinistro dizendo;_ Hoje é o dia que vou morrer.Eu disse a ele.
_Que nada ouça os abutres cantando.O dia vai ser muito louco me passa o chá.
Era um garrafão de vinho seco misturado com chá de cogumelo que tínhamos como café da manhã.Tomamos o chá, fumamos um baseado cada um sem miséria e engolimos umas 10bolas cada um 5artânes e 5hipofagin e ficamos dando um tempo ouvindo no gravador uma fita com som próprio da nossa banda HDV ‘‘Habitantes do Valetão’’ lá embaixo esperando o efeito catar.Foi então que Heavinho disse que colocaria fim a um problema eu perguntei qual ele não quis falar mas depois eu soube através do Pedrok que era por causa de um romance impedido de acontecer pela mãe da Ivani,uma garota que ele gostava. A solução que ele achou seria os dois se matarem. Ela trabalhava em um consultório médico e lá à noite fizeram um pacto de morte, combinaram os dois de tomar todos os remédios que lá tinha. Mas não foi o que aconteceu. Ele apaixonado esperando desfrutar de seu amor no além, no inferno, do outro lado da vida sem barreiras , obstáculos , empecilhos tomou tudo que ela própria havia separado e lhe deu. Após cinco minutos ter ingerido toda aquela medicação ele cai e começa a se contorcer,ela fica olhando sem saber o que fazer ele então fita seus olhos no fundo e babando,convulsionando dá seu suspiro de morte,concluindo o pacto que não aconteceu, pois foi enganado.
Assim Heavinho morreu.

CONTINUA ...



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